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História dos bairros – Liberdade (BA e SP)

novembro 30, 2008

Salvador

Conhecida antes como Estrada das Boiadas, a Liberdade era passagem para pessoas e bois que vinham do sertão e eram comercializados na Feira do Capuame. No dia 02 de julho de 1823, passou por ali o exército libertador, para consolidar o fim do domínio português no Brasil. Foi dessa forma que a Estrada das Boiadas passou a ser a Estrada da Liberdade, hoje, bairro da Liberdade. Após esse acontecimento aliando-se a assinatura da Lei Áurea, o bairro da Liberdade começou a ser povoado por escravos libertos e seus descendentes, além de moradores do sertão que fugiam da seca.

O local é considerado o bairro mais populoso da cidade de Salvador. Por ser representante forte da cultura negra, o Ministério da Cultura o considera como território nacional da cultura afro-brasileira.

De acordo com o historiador Cid Teixeira, que vivenciou a evolução do bairro nos últimos anos, a Liberdade era composta por aproximadamente cinco roças, com bois e vacas. E, ao contrário de outros bairros, que se embranqueceram, a Liberdade manteve sua negritude.

A chegada dos moradores na Liberdade começou logo depois da abolição da escravatura. Os negros libertos, ex-escravos, começaram a ocupar o lugar. Muitos deles eram africanos também, e filhos e netos deles, que seguem até hoje com a originalidade negra. Por isso o negro é a maior referência do bairro soteropolitano, bem como suas manifestações artísticas. O bairro também abriga grupos afros, como o Vulcão da Liberdade, o Muzenza, o Ilê Aiyê, dentre outros.

O bairro é grande, abrange a Soledade, Lapinha, Sieiro, Japão, Duque de Caxias, Curuzu, Cravinas, Bairro Guarani, Alegria, Jardim São Cristóvão, São Lourenço e parte do Largo do Tanque e da Baixa do Fiscal.

No cotidiano da Liberdade, percebe-se que o local tem uma vida própria, independente e ativa, devido ao fato de apresentar um número de comércios elevado formal (lojas, bancos, restaurantes, entre outros) e informal (feira-livre, ambulantes), fator que dá a este bairro a característica de grande movimentação todos os dias da semana. O que torna perceptível a constatação de uma vida comercial e financeira compondo a principal via do bairro, a Avenida Lima e Silva, juntamente com as moradias. Com um olhar mais direcionado, é possível perceber que as casas da Liberdade ainda possuem marcas que parecem ser de seus primeiros moradores. Daquele tempo em que a Estrada das Boiadas era a via de entrada das famílias em êxodo rural. Dentre as peculiaridades dos imóveis, o telhado alto com paredes que não vão até o teto. Essas casas são mais fáceis de encontrar nos pontos mais carentes do bairro.

Quando se trata da religiosidade desse povo, fica visível na Avenida principal do bairro a existência de várias religiões. Em uma das visitas foi possível visualizar a Igreja de Cosme e Damião, a Igreja Católica Independente, a Assembléia de Deus dentre outras. Entretanto, é valido ressaltar algumas que fazem parte ativamente da história do bairro, como exemplo a Igreja de Santa Bárbara que foi a primeira Igreja Brasileira da Liberdade, localizada na Rua Lima e Silva, mas com o crescimento da populacional e busca por assistência cria-se a Paróquia de São Cosme e Damião para atender a demanda da populacional. A partir desse momento São Cosme e Damião são os Padroeiros do Bairro. Existe ainda a Igreja de São Lázaro, que segundo os moradores locais ajuda a recarregar as energias.

No bairro ainda é possível vislumbrar vários terreiros de Candomblé, que é uma das formas auto-afirmação da Cultura africana como exemplo: Ibásóré Iyá, Terreiro Vodum Zoo, entre outros. Quanto a outras religiões temos a Igreja Universal, Assembléia de Deus, Adventista e Batista.

As praças e largos são bem movimentados e movidos pela história. A Praça Nelson Mandela foi inaugurada em agosto de 1991, para homenagear o principal representante do Apartheid, que foi libertado dos 27 anos de prisão na África do Sul. Por isso, a praça ganhou não apenas o título mas também um busto de bronze em reconhecimento à luta de Mandela contra a discriminação racial e a favor da paz. O local é espaço cativo para os eventos e manifestações culturais do bairro como a saída do Bloco Afro Ilê Ayiê durante o carnaval e utilizada pela Igreja para missa campal após procissão em homenagem a Santa Bárbara. Quanto aos largos, destacam-se o Largo da Central, ponto de encontro dos moradores e um dos principais ponto de lazer e o Largo do Tanque, que também é utilizado pela população com a mesma finalidade, o lazer. Enfim, são muitos os lugares, entradas e locais que compõem a Liberdade. Assim, como o Plano Inclinado, meio de transporte que liga a Liberdade ao bairro da Calçada. Sua inauguração foi em 13 de março de 1981. Durante a semana, estima-se que cerca de 10 mil pessoas usam o sistema.

Os moradores recebem um acompanhamento com relação o ao social, contando com associações e ONGs que está sempre disposta a ajudar quem os procura a exemplo, o Centro Social Urbano da Liberdade (CSU) foi fundado na década de 80. Desde então, oferece um espaço cultural e educativo à comunidade local. São cursos de Karatê, oficinas de talentos musicais, capoeira, curso de inglês, encontros da terceira idade, percussão, dança de salão, entre outros e temos também  a Associação Cultural Ilê Ayiê que oferece a comunidade cursos profissionalizante além de inclusão digital.

Com relação a comunicação, é oferecido aos moradores um jornal, que divulga a todos projetos sociais e culturais do bairro, além de informar sobre tudo que é de interesse geral. A rádio Liberdade FM , dando aos artistas local visibilidade e a oportunidade de mostrar o seu trabalho, deixando a população atualizada. E para  finalizar tem uma rádio de serviço onde são feitas divulgações dos comerciantes locais. 

Após os fatos expostos acima, percebe-se que o Bairro da Liberdade tornou-se estruturado e cheio de atrativo aos seus visitantes que buscam aprofundar-se ainda mais na cultura africana. É um convite para que todos vivenciem um momento com experiências únicas.  

São Paulo

A Liberdade de São Paulo tem várias histórias que rondam a nomenclatura deste famoso bairro. Entretanto, para compreender toda a história da imigração e também da instalação do povo japonês no local é que vamos dividir este capítulo em alguns tópicos. Primeiramente vamos saber a história do nome do bairro, fato que se deu antes da chegada dos imigrantes no país.

História da nomenclatura do bairro

O bairro na antiguidade foi palco de grandes e importantes fatos históricos. De acordo com alguns historiadores, o nome do bairro se deu devido às necessidades das proclamações da abolição da escravatura e da Independência do Brasil, já que o nome do bairro surgiu em 1821. Já a lenda diz que o nome do bairro foi dado devido à morte de um soldado chamado Francisco José de Chagas, o qual foi condenado à morte por liderar uma rebelião contra os atrasos no salário. No momento do enforcamento, conta-se que a corda rompeu por três vezes e o soldado acabou sendo morto a pauladas.

Já a história do nome da Avenida Liberdade, principal via do bairro, começou em 1754 quando a rua era chamada de Rua da Pólvora porque era o caminho que levava à Casa da Pólvora. Já em 1775 com a criação da “Forca”, sistema utilizado para cumprir as penas de morte e que ficava bem próxima ao Largo daquele local, a rua teve o nome modificado para Rua da Forca. Em 1810 foi chamada Rua de Cima e mudou novamente para Rua do Cônego Leão, visto que ali residia o Cônego Leão José de Sene.

Depois disso, já em novembro de 1865 finalmente é chamada de Rua da Liberdade.

A imigração

A imigração japonesa no Brasil teve início em junho de 1908 quando o navio Kasato Maru aportou em Santos, trazendo os 781 primeiros imigrantes que faziam parte do acordo imigratório estabelecido entre o Brasil e o Japão para a contratação de mão de obra externa para as fazendas que lá existiam na época.

Estas pessoas traziam no coração a esperança e o sonho de ter prosperidade e paz nesta nova terra, e buscavam construir uma nova vida na América.

Porém, após sofrer com o regime escravocrata nas fazendas e cafezais e com doenças como a malária, os imigrantes decidiram voltar para a capital e cultivar outros produtos, introduzindo no país o costume de ingerir frutas, legumes, verduras e hortaliças.

O bairro da Liberdade foi escolhido para ser a residência desta nova população visto que ficava em uma região central, de onde poderiam se locomover facilmente para os locais de trabalho e também porque ali a maioria das casas tinha porões, o que tornava o valor do aluguel incrivelmente baixo.

A primeira rua a ser povoada foi a íngreme ladeira chamada Conde de Sarzedas, que tinha na parte baixa um riacho e um mangue. Instalados na região começaram a montar negócios próprios que vendiam serviços como hospedagem, alimentação, empório e agências de empregos.

Além disso, construíram cinemas que exibiam filmes no idioma pátrio, escolas que ensinavam as línguas japonesa e portuguesa, hotéis e até mesmo a publicação de jornais em japonês.

O que parecia ser um período feliz para os imigrantes, se tornou obscuro após o anúncio do apoio do Japão aos países do eixo, que eram Alemanha e Itália, durante a segunda guerra mundial. Neste período, o Governo Getúlio Vargas proibiu a veiculação de publicações em japonês e expulsou grande parte daquele povo para fora do Brasil. Situação que foi normalizada em 1945, depois da rendição do Japão.

Após retornar, os japoneses implantaram Associações para preservar a cultura e a perpetuação desta aos descendentes, livrarias com exemplares em japonês, diversos restaurantes e lojas comerciais que até hoje são motivo para atrair um grande número de turistas ao bairro.

Além disso, com o crescimento e desenvolvimento do país, outros imigrantes passaram a habitar no local como os chineses e os coreanos, os quais também implantaram comércios para garantir o sustento.

Já a partir das décadas de 80 e 90, após o fechamento de alguns cinemas e hotéis, surgiram os karaokês, que até hoje são bastante freqüentados por pessoas de diversas faixas etárias.

Religiosidade

Embora não existam relatos e bibliografias que possam comprovar, a hipótese é que no bairro vivia uma boa quantidade de escravos já que existia no local, entre a Rua dos Estudantes e a Rua Almeida Júnior o Cemitério dos Escravos, local onde foi enterrado o soldado Francisco José de Chagas, já citado anteriormente neste trabalho.

No local atualmente funciona apenas o que era a Capela dos Aflitos. Igreja que foi construída pelos escravos e que até hoje tem a função de realizar missas e de receber as pessoas que vão rezar pelas almas que estão no purgatório.

Já onde era localizado o Largo da Forca, hoje Praça da Liberdade, está a Capela dos Enforcados ou Igreja da Santa Cruz, onde também é possível realizar preces em favor dos que naquele largo foram punidos.

Além disso, é notadamente grande a diversidade religiosa no local. Pelos japoneses veio a religião budista, que tem um templo da comunidade Soto Zenshun, no centro do bairro. Existem também diversas igrejas evangélicas como a Presbiteriana, a Adventista, a Metodista, dentre outras.

Praça da Liberdade e decoração

Anteriormente funcionando como o local de punições na forca, a Praça da Liberdade abriga hoje aos finais de semana a tradicional Feira da Liberdade, que expõe produtos artesanais, alimentos e outras atividades que demonstram a cultura oriental do local.

Também nesta praça são realizadas diversas atividades culturais e esportivas do calendário japonês, como por exemplo, o festival das flores, onde o grande elefante branco desfila carregando o pequeno Buda, e o campeonato de sumô.

O destaque para todo o bairro são as lanternas (suzurantos), os jardins e o Toori, portal colocado no local para homenagear as décadas de imigração japonesa no país.

Associações

Atualmente existem diversas associações culturais e assistenciais no bairro. Entre elas, destaque para a ACAL, entidade que colabora na perpetuação e difusão da cultura japonesa para a população descendente ou não, além de organizar as feiras de artesanato que acontecem aos finais de semana, dentre outras atividades culturais.

Na ACAL são oferecidos cursos gratuitos de dança, karaokê, esportes, coral, ginástica e outras atividades.

Jornais e cinemas

Em 1946 foi criado o Jornal São Paulo Shimbun e um ano depois o Jornal Paulista.

Já os cinemas tiveram um prazo maior de elaboração. O primeiro, o Cine Niterói, foi fundado em 1953, na Rua Galvão Bueno. Logo depois vieram os Cines Nippon, Jóia e Tokyo, todos inexistentes nos dias atuais.

Cotidiano

O bairro vive em atividade constante. Não pára um só instante. Nos finais de semana, período em que os visitantes do bairro saem às compras dos diversos produtos, é quase impossível não esbarrar em alguém nas estreitas ruas. Além disso, os jovens buscam no bairro as novidades em mangás, que são desenhos japoneses.

Já os mais idosos, presenças marcantes no bairro, aproveitam para descansar, ler jornais e bater um bom papo com os amigos, de preferência no idioma pátrio.

Neste momento pode-se afirmar, sem nenhuma dúvida que o novo e o velho se encontram para reinventar o presente.

A grande visitação do bairro e sua importância perante à sociedade deixa claro que a cultura deste povo é um legado que nunca será esquecido. E se depender do governo e das instituições e associações do bairro, isso não acontecerá nunca.